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Ciclo de Exposições na Ante-Sala e Salão da BASE
The World is as Soft as Lace
Maria Joana Santos 
Texto de Miguel Meruje

O Ciclo de Exposições que se inicia na Ante-Sala e Salão da BASE permite um olhar à obra que Maria Joana Santos (n.1979) tem vindo a desenvolver, que assim regressa a este espaço, numa versão concisa e maturada da sua prática artística. No século e meio desde que foram publicadas as Iluminações (1873) de Arthur Rimbaud, certos momentos podem servir-nos de candeia para alumiar o caminho, e podem ser identificados por quem percorra e esteja atento às marcas. Em As Pontes‘: “A água é cinza e azul, larga como um braço de mar. — Um raio branco, que cai do alto do céu, arruína essa cena teatral,” e podem ver-se nas paredes a névoa amarela, também esse raio branco, numa organização gráfica em que existe algo de primal, de regresso ao primitivo e que, por isso, não é alcançável com instrumentos, mas que está lá antes das outras coisas. Que verdade pode a arte ter, se nos entregamos tão voluntariamente à ilusão? Nunca se pode ter o suficiente nem se pode ter em demasia, tanto desta, como daquela.

O traço de Maria Joana Santos é fruto de pesquisa e do gesto controlado, e como em ‘Operário‘, Rimbaud ordenava: “Quero que esse braço enrijecido não arraste mais uma imagem querida,” o espectador tem perante os seus olhos uma pintura sem barreiras nem limitações, acessível apenas pela amostra, parte de algo que extravasa os limites do espaço pictórico. Daí surgirem obras em série, o conjunto que permite a exploração, o aprofundamento da mesma matriz que brota novas formas de contar a mesma história, a narrativa da base comum dos seres, que pode ser contada por cada um de maneira diferente. Esta serialismo não exclui o isolamento dos elementos, passíveis de se sustentarem autonomamente no meio do vazio da superfície da pintura, pois até o desenho vertical surge representado, sem sucedâneo e em que vemos que a não-repetição não é a novidade: não só entra no vocabulário expansivo da artista, mas também numa sequência evolutiva.

Como pode haver escolhas nas paixões tornadas obsessões? As formas repetidas e as cores podem ser pensadas, mas se a arte até ao artista revela algo que parecia estar tapado, como não querer replicar esse sentimento de revelação? Porque é que depois de revelarmos uma verdade tão pessoal, que desencadeámos num túnel tão próprio, precisamos logo de ir atrás de outras verdades que nos são mais recentes?

Os detalhes, a alteração de escala, fazem que, pela utilização do espaço expositivo da BASE, se testem a recepção e acessibilidade, dos valores que constituem uma normalidade, como uma escala que meça a conjugação destes diferentes momentos — que agora são trazidos a público e que, no seu conjunto, fornecem conforto pela oscilação entre ordem e caos, entre manchas de tinta e a linha disforme, numa mancha disforme, humana e não maquinal. Esta diferença não é variedade, mas sim a oposição. São elementos que fazem parte de algo aposto, vêm de uma concretização após, iniciados pelo espírito do oposto, de confrontar duas medidas que se olham e se revêem uma na outra, que vem pelo sentido da interrogação, trazendo intimismo num lado, e desprendimento do outro.

Nas ‘Cidades [II]‘ Rimbaud identificava um espaço onde “grupos de campanários cantam as ideias dos povos,” mas e a solidificação das ideias em arranjos gráficos? O balanço entre o que é diferente, de estabelecer a pedra na matéria antes de dar o próximo passo, o ponto feito em relação ao ponto anterior, a proposta de uma série para a construção de algo que tenha sequência, uma constelação que se vai acendendo num espaço vasto. Esta minuciosa variação de temas que pautam a obra que Maria Joana Santos tem vindo a desenvolver, coloca ênfase no despropósito e na futilidade em exagerar nos adjectivos; para quê fazê-lo, quando o exagero pode ser feito nos verbos? Fazer, pintar, cortar. Mais do que o traço, vemos o gesto de riscar, esgravatar. A própria tinta surge de várias formas em superfícies que clamam por diferentes técnicas — guaches, aguarelas, óleos, grafite, em justaposição ou como resquícios, sombras de grafite que passam a fantasmas que são companhia e acompanhamento. No ímpeto de conservar o movimento, estão lá as ‘pegadas’ das passagens iniciais, em que, sob a velocidade apressada da criação, não vemos hesitações, mas sim uma rota que já antes foi percorrida em desenhos e estudos para chegar a esta forma final. Este rasto é auto-consciente, parte da celebração da redução enquanto complexidade, pela apurada maturidade do traço que não descura a tentativa, a experimentação; também não é a obra que se faz, ela é feita.

Nesta transição, distinguimos duas dimensões: uma muito corporal, desde o processo de diluição dos pigmentos que se esvaem em transparências, dos traços da mão ao organismo em si. Em momentos mais nocturnos, esqueléticos na forma, em que sobressai a caixa torácica como paisagem, a espinha dorsal como elemento de um mundo submerso em que o preto é negro por si e pela soturnidade do ambiente denso, como o nosso interlocutor Francês deixou em Sulcos: “Caixões sob o seu dossel de noite erguendo as plumas de ébano, seguindo ao trote das grandes éguas azuis e negras.” Ainda assim, nem tudo é desconcertante: existem outros, de um estado mais anterior da evolução da própria forma humana, em que a pureza evolutiva surge pelas algas e corais, as cores que não são antropomórficas mas mais próximas dos anfíbios e de um mundo submerso. Recorrendo a uma dessas ‘Frases‘: “O tanque alto fumega continuadamente. Que feiticeira se vai erguer no poente branco? Que folhagens violetas vão descer?”

Ou seja, no confronto de dois mundos, sem ícones para adorar nem imagens para atacar, Maria Joana Santos traduz não por ímpetos — os acidentes de trabalho são aqui felizes porque são fruto — não da natureza, mas através de um trabalho em estúdio, arquitectado, explorações em como a tinta reage debaixo de água, ora em ambientes diurnos, ora nocturnos — ora águas tropicais, ora próximas dos glaciares. Na pausa para criar antecipação, também Rimbaud via uma ‘Manhã de ebriez‘ que “começava com toda a rudeza, mas terminou com anjos de chama e gelo.”

Para a atmosfera, contribui também a escala que nos convida à aproximação, esse gesto físico de nos levarmos para próximo da obra, a que o formato de painel contribui não como elemento artístico, mas como meio artístico, fazendo parte da mancha de contorno constante, do ponto de intersecção que nos coloca em XX confronto com a vontade do artista e nos faz entrar num diálogo pessoal, até porque procuramos sempre saber mais de nós na arte — e não há nenhum objecto que não tenha perguntas para nos colocar. Do campo de questões a que a obra de Maria Joana Santos nos rodeia, somos levados a pensar com o olhar — como em ‘Partida‘, Rimbaud dixit: “Basta de ver. A visão reconheceu-se em todos os lugares.” — e posteriormente sobre os limites e a originalidade, que vemos na maneira em como certas ideias são reforçadas, o escuro com a cor ainda mais escura, as séries interrompidas pela luz de telas isoladas e o desenho perdido no mar branco.

1. Sem título, 2020, óleo sobre papel, 25 × 33 cm 
2. Sem título, 2020, óleo sobre papel, 25 × 33 cm
3. Sem título, 2020, óleo sobre papel, 25 × 33 cm 
4. Sem título, 2020, óleo sobre tela, 30 × 34 cm
5. Sem título, 2021, riscadores sobre papel, 76 × 57 cm  
6. Sem título, 2021, guache sobre papel, 35,5 × 49,6 cm
7. Sem título, 2021, riscadores sobre papel, 33,3 × 21,5 cm 

Maria Joana Santos – mariajoanasantos.com / Miguel Meruje – miguelmeruje.com